sábado, 15 de setembro de 2018


"Instituto Leteo. Aqui hoje, esquecido amanhã! Sofre de memórias indesejadas? Ligue para o Instituto Leteo no número 1-800-EU-ESQUEÇO para maiores informações sobre o nosso procedimento de última geração no campo do alívio de memória!"  

Lembra aquela vez que eu fiz uma resenha de mais um livro incrível que me fez ter vontade de gastar meu marcador de texto em todas as frases? Essa aqui é para todos aqueles que descobriram que a felicidade pode ser difícil.  

Ultimamente tenho me achado um tanto quanto desesperançosa com as coisas que eu julgo ser capaz de me fazer alcançar aquele pico de felicidade. Acredito que isso seja comum, afinal todos nós questionamos a felicidade em algum ponto da vida e uma vez que nos deparamos com as consequências disso, é impossível parar. Completamente viciante. De repente, questionar a felicidade e achar novos alvos para depositá-la se tornou a mais nova tarefa do homem do séc. XXI para, em seguida, sofrer com as decepções e frustrações, desejando fortemente se capaz de esquecê-las e viver como se nada tivesse acontecido. Já pensou se isso fosse possível? Adam Silvera, autor da obra, não só pensou como também externalizou o universo do menino que sofre com o excesso de memórias e pensa encontrar a felicidade ao esquecê-las.   

Nunca na vida li um livro que me intrigasse tanto sobre esse jogo de pega-pega pela felicidade que se resume aos nossos dias como essa obra do Adam Silvera, e quem me conhece sabe que eu falo algo bem parecido depois de cada livro que leio, mas dessa vez é sério!  

"Lembra aquela vez" é um livreto de 331 páginas recheado de frases inteiramente sublinháveis e com perfeita descrição de locais, sentimentos, temperatura ambiental e até mesmo cheiros, narrado por um moleque magricela com o dente quebrado, dono de uma mente perturbada chamado Aaron Soto. O menino de 16 anos, morador de conjuntos habitacionais do Bronx em Nova York que tentou suicídio e encontrou seu pai morto na banheira com a própria navalha de barbear, se questiona se o panfleto que sua mãe guarda na gaveta do cômodo ao lado da cama, tratando do Instituto Leteo, não é só mais uma campanha de marketing para promover um novo filme de ação, ou se a frase "aqui hoje, esquecido amanhã!" não era uma tentativa tosca de propaganda para um remédio de gripe, dizendo que jamais acreditaria nessa baboseira. Acho que todos nós sabemos como isso termina, né? Errado. O livro é tudo menos previsível.  

Aaron só passou a acreditar na real eficiência do procedimento quando teve um de seus melhores amigos, Kyle, submetido à tal da lavagem cerebral. Kyle era gêmeo idêntico de kenneth, quando o primeiro cometeu a besteira de transar com a irmã de um portador de armas do bairro, e Kenneth, seu gêmeo totalmente idêntico, foi morto em seu lugar. Esquecer que tinha um irmão que foi baleado quando deveria ter sido você parece bem tentador, ainda mais quando pensamos que não teremos que lidar com o luto, e foi isso que fez com que a família de Kyle se mudasse do bairro para recomeçar uma vida longe das lembranças da falecida sombra de Kenneth.  

Aaron, um tempo depois, tentou suicídio ao lidar com a morte de seu pai, que também tirou sua própria vida na banheira de casa, e em troca ganhou uma cicatriz com o formato de uma carinha sorrindo no pulso. O descontentamento incessante do protagonista com a própria vida sempre foi amenizado por Genevieve, sua namorada há um ano, que o socava no ombro e o chamava de Mané Idiota (bem pique Annabeth com Cabeça de Alga em Percy Jackson) quantas vezes podia! A jovem de cabelos escuros era artista e vazou por três semanas para Nova Orleans em um acampamento de desenho e pintura, tempo suficiente para que Aaron criasse memórias que jamais desejaria esquecer.  

Soto, o menino que talhou um sorriso no pulso só porque não conseguiu encontrar a felicidade, conhece Thomas no meio de um jogo com os amigos do bairro, se escondendo em um beco fedido. Thomas, o menino que não sabe o que quer, se torna seu melhor amigo e, por três semanas, ele se desculpa internamente por ser tão idiota que pensou que não tinha motivos para ser feliz, quando estava claro que Thomas era sua felicidade. O menino de pele escura e sobrancelhas bagunçadas faz Aaron perceber que, tipo, talvez, meio que algo dentro dele o faça ser um gostador de caras. Gay não. Um gostador de caras. Não se pode ser gay e pobre no Bronx, óbvio.  

Os amigos de bairro de Aaron, quando percebem que alguma coisa está diferente e capturam o momento em que Thomas e A trocam um abraço apertado (amizade sincera), decidem intervir e fazer o que fazem de melhor. Aaron levou tantos chutes e socos, que algo estalou em sua cabeça e agora as memórias o invadem com tudo. Aparentemente, ele já havia sido submetido a um procedimento do Leteo, mas para esquecer o quê?  

Personagens muito bem construídos e cenários que não deixam a desejar em absolutamente nada são duas características fortes da obra, detalhando cada metro quadrado criado por Silvera sem enrolar ou encher a famosa linguiça. Tudo o que é dito nas entrelinhas é inteiramente relacionável com a vida, e quando a trama finaliza tudo faz sentido como um perfeito quebra cabeça. Amo livros assim! É intrigante pensar no que vai acontecer em seguida e, apesar de não ser previsível, nenhuma cena seguinte é tosca, o que é um ponto muito foda quando lembramos que o problema fático do livro é um instituto que manipula seu campo de memórias e esconde seu próprio passado de você mesmo, o que, óbvio, não funciona. Ou funciona? Não sei, não lembro.  

A única coisa que eu senti falta na obra foi saber o que aconteceu com a vida dos personagens secundários. Quem foi preso, quem se matou, quem era o melhor amigo no fim do dia e se genevieve havia, de fato, conseguido terminar de pintar algum outro quadro, já que era uma dificuldade nítida para ela.   

O livro físico também não decepciona (não estou surpresa), a editora Rocco o publicou em um tamanho gostoso de segurar e levar por aí, nem muito grande e nem muito pequeno, contando com as folhas de gramatura mais alta, garantindo que a tinta do marma texto não transfira para o verso da página quando você sentir vontade de grifar uma cena. Acredite, vai acontecer. 
  
No que tange à arte do livro, a ilustradora Liz Casal criou a capa dos sonhos! Foi definitivamente uma das coisas que mais me chamou atenção no livro - além do nome do Adam no topo rs - e o jeito que ela se encaixa com a história é simplesmente brilhante. As cores com os significados fizeram jus aos conflitos narrados nas folhas, como a mancha azul no canto do cérebro dedicado ao armazenamento de memórias sendo invadida pelo borrão rosa na parte frontal, responsável pela criação de novas memórias foi mindblowing! A mancha amarela me lembra a Genevieve e a verde me remete ao Thomas. Genial!  

Bom, depois de deixar bem claro que só tenho elogios acerca do enredo do livro, sinto a REAL necessidade de dar uma puxada de saco no autor que não tava pra brinks quando escreveu esse monstro de 331 páginas. Não sei exatamente ainda se Adam Silvera é o harry potter ou você-sabe-quem da minha saga, mas sei que definitivamente vai pro número 1 na lista de autores revelações - aposto que você tem uma lista dessa também, nem que seja na sua cabeça, então não me julgue.

O escritor nasceu e cresceu no Bronx e teve algumas experiências com trabalhos que confesso que senti inveja. Antes de virar um híbrido de harry potter e Lord Voldemort, Adam trabalhou numa empresa de desenvolvimento literário e como crítico de romances infanto juvenis e de jovens adultos, tudo o que falta pra me descobrirem e eu me tornar apta para fazer uma colab com o Adam. As if!   

Adam conta com algumas outras obras tão boas quanto, como História é Tudo que Você Deixou, Os Dois Morrem no Fim, More Happy Than Not, que não sei se já foi traduzido, mas creio que não, e está lançando um novo agora junto com a Becky Albertali que, pra quem não conhece, é a autora de um Young Adult bem queridinho chamado Simon vs. a Agenda Homosapiens (tem resenha dele no blog também!), e a tal nova obra se chama What If It's Us e será lançado ainda em inglês no dia 09 de outubro! Ansiosíssima!   

É isso galera, espero que quem decida ler o livro aproveite e aprenda tanto quanto ele é capaz de ser aproveitado e de ensinar! pra quem já leu, muito bom gosto é o que você tem, continue assim! Vamos deixar o link do livro pela Amazon disponibilizado aqui embaixo nos comentários, pra quem se interessar em comprar e é isso. Beijo do Fantasma!